Viver a intensidade de ser mortal exige tolerar o mistério como esperança

A esperança pode ser uma chama? A coragem de habitar o desconhecido, lida a partir de Bion e dos mitos de Prometeu e Pandora.

Ilustração em tons escuros evocando os mitos de Prometeu e Pandora

A rotina avança, os dias passam, os sentimentos surgem e então, aquela inquietação surge quando tudo parece seguir um roteiro; algo dentro de nós que pede por um significado, uma transformação.

É como se estivéssemos presos em um espaço onde tudo se move, mas nada verdadeiramente muda, não é? Como um rio que corre sem se preocupar com as margens, seguimos adiante, ocupados para perceber o que realmente nos move.

Mas e se, por um instante, pudéssemos parar e sentir o peso do próprio tempo? O que encontraríamos no espaço entre um dia e outro?

Ilustração de uma figura solitária diante de uma paisagem escura

A coragem como engrenagem do existir

Buscamos constantemente nos proteger das ilusões, dos riscos e das dores que a vida nos proporciona — é um movimento quase instintivo em evitar o sofrimento como forma de sobrevivência.

Mas, será que, ao nos blindarmos, não estamos também nos afastando da possibilidade de transformação? Há um certo humor entre toda esta dualidade.

Se cabe um referencial teórico, podemos mencionar Wilfred Bion. A dor mental, para Bion, não é apenas um fardo, mas um elemento essencial para que ocorra a mudança psíquica do indivíduo. A mente saudável e viva, para ele, precisa ser capaz de tolerar as dores do crescimento, pois é a partir destas que surgem novas formas de pensar, criar e dar novos significados à nossa existência. Mas, negar a existência do mistério nisto tudo? Não o faz desaparecer. Ao contrário, a intensidade pode gritar em um silêncio, silêncio este que transforma-se em uma guerra interna onde os pensamentos são sufocados e as emoções tornam-se irrelevantes.

Em algumas pessoas, infortunamente, esta dor se torna tão insuportável que a única saída parece ser silenciar a própria mente — evitar o sofrimento a qualquer custo, mesmo que isso signifique abrir mão do prazer, da curiosidade e da conexão com o mundo.

Muitas vezes, esta busca incessante pelo alívio mental se traduz em meios, seja por meio de medicamentos, seja por meio de um distanciamento emocional (e, consequentemente, social), seja por meio de imobilização mental.

O silêncio pode perturbar?

Essas pessoas se veem desalojadas do desejo, assustadas com o que podem, eventualmente, encontrar dentro de si mesmas. Para elas, pensar e comunicar tornam-se mecanismos perigosos (não ao outro, mas a si), que precisam ser controlados e restringidos. Entretanto, o resultado disto tudo é nada mais do que um embotamento, afinal, o contato com a vida reduz significantemente e se torna um automatismo — uma existência que se desenrola sem um envolvimento real, profundo e conexo, apenas “tocando a vida” como uma mente em um estado zumbi.

Imortais enquanto humanos ou humanos enquanto mortais?

Há dois contos gregos que, em minha opinião, se encaixam neste sentido. Serei breve, mas sucinto quanto a essa interpretação.

Prometeu, ao roubar o fogo dos deuses para dá-los aos homens, ameaça o controle do fogo dos deuses. O fogo implica mudança de estado, uma energia transformadora, mas também subversão, perigo e destruição. Perder o controle, para os deuses, é uma catástrofe sem precedentes, afinal, a posse deste representa supremacia e invariância, ao contrário que, para os humanos, a ausência do fogo limita a vida. Prometeu desafia o controle absoluto e a inércia como formas de recusa ao conhecimento da existência.

Zeus, como vingança por Prometeu ter roubado o fogo do Olimpo, criou a primeira mulher, Pandora, e a deu uma caixa com a instrução de não a abrir. No entanto, em resposta ao afloramento de sua curiosidade, ao abrir, Pandora trouxe aos humanos a revelação dos males do mundo. Ela nos lembra e nos faz reflexionar que a crença de que o que não se percebe, não existe, reflete um funcionamento psíquico primitivo.

O autoconhecimento exige coragem para enfrentar o sofrimento inerente à vida, pois “só se pode conhecer a vida quando se descobre a realidade da morte”.

Mas, Pandora não é lembrada pelos males. Não, estes não possuem espaço aqui.

Ela trouxe esperança. Para os deuses, que detêm o controle absoluto, ela é irrelevante; mas para os humanos, torna-se indispensável. A esperança está diretamente ligada à capacidade de tolerar incertezas, um elemento essencial para o crescimento emocional (BION, 2004).

Então, o que há nisto tudo?

Oras, diante da inquietação e a dor mental incessante, podemos considerar: se a dor é inevitável, talvez o segredo esteja em como lidamos com ela. Evitá-la pode parecer uma saída, mas estaremos apenas adiando seu impacto, não?

Afinal, crescer não é sobre evitar o desconforto — é sobre encontrar sentido nele. A vida flui, e permanecermos inertes e imutáveis é negar nossa própria existência.

Assim como Pandora revelou ao mundo os males, mas também a esperança, e Prometeu, ao desafiar os deuses, suportar a verdade de não haver controle sobre o fogo da vida é transformar um saber em aprendizado. Portanto:

Viver a intensidade de ser mortal exige tolerar o mistério da existência como um ato de esperança.


Nota: o texto é baseado e adaptado do artigo “Dor mental e engrenagem suicida: um jeito de existir”, presente no livro Mitologia Grega e Psicanálise: reflexões.

Referências para quem interessar:

  • Costa, P. J. (2014). Mitologia Grega e Psicanálise: reflexões. Curitiba: CRV.
  • Bion, W. R. (1981). Cesura.
  • Bion, W. R. (2004). Transformações: do aprendizado ao crescimento.
  • Bion, W. R. (1991). Uma teoria do pensar.

Publicado originalmente na newsletter Ecos de Delphos.

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